Nos últimos dias, o Brasil tem acompanhado com atenção a escalada do conflito no Oriente Médio e os desdobramentos da tensão envolvendo potências internacionais. Embora o cenário esteja a milhares de quilômetros de distância, os impactos já começam a ser sentidos por aqui. Em Goiás, o preço do óleo diesel tem chamado atenção e, em alguns municípios, o litro já se aproxima dos R$ 8 e até R$ 9.

Outro sinal de alerta vem do abastecimento. Cidades do interior já relatam dificuldade na reposição do combustível em postos, o que levanta preocupações em meio a um momento estratégico para a economia goiana, que é o período de escoamento da safra de grãos. Com o transporte rodoviário como principal via logística, qualquer instabilidade no fornecimento ou no preço do diesel pode gerar reflexos em cadeia.

Mas os efeitos não se limitam ao campo. A alta do combustível também pode pressionar outro setor fundamental da economia: a construção civil. Para entender como o conflito internacional pode repercutir nas obras e no mercado imobiliário, a reportagem do AutImob conversou com o economista Julio Paschoal.

Segundo Paschoal, a elevação do diesel está diretamente ligada às tensões geopolíticas e ao risco de interrupção de rotas estratégicas para o transporte de petróleo no mundo. “O caminho por onde passam os navios petroleiros é praticamente único para ligar o Oriente Médio ao restante do mundo, que é o Estreito de Ormuz. Com essa rota comprometida, há risco de desabastecimento tanto no Ocidente quanto em países da Ásia que dependem dessas exportações”, explica.

O economista destaca que o Brasil também acaba sendo afetado por essa dinâmica internacional. Apesar de ser produtor de petróleo, o país ainda depende da importação de derivados. “O Brasil não é autossuficiente em refino. Exporta o óleo cru e importa derivados do petróleo, que são negociados em dólar. Com a alta do barril Brent no mercado internacional, os preços internos tendem a subir”, afirma.

Impacto também na construção civil

Na construção civil, o impacto mais imediato ocorre no transporte de materiais. Tijolos, cimento, aço e outros insumos dependem majoritariamente do transporte rodoviário, movido a diesel. “O que pesa mais é o transporte de materiais, porque ele é feito principalmente por caminhões. Com o diesel mais caro, o frete sobe e esse aumento acaba pressionando o custo das obras”, pontua Paschoal.

De acordo com o economista, nos próximos meses o impacto pode ser parcialmente amortecido por reservas estratégicas de petróleo mantidas por alguns países. Ainda assim, o cenário permanece incerto. “Cerca de 32 países possuem estoques estratégicos que podem amenizar o impacto no curto prazo. Mas, se o conflito se prolongar, a tendência é de aumento mais forte nos preços do combustível”, avalia.

A economia sente de forma geral

Esse encarecimento, segundo ele, dificilmente ficará restrito a um único setor da economia. “Todo aumento de custo tende a ser repassado para o consumidor final. No mercado imobiliário não é diferente. Para manter a margem de lucro, as empresas acabam incorporando esses custos ao preço final dos imóveis”, explica.

Programas habitacionais também podem sentir os efeitos. Iniciativas que dependem do transporte de grandes volumes de materiais até os canteiros de obra podem enfrentar revisão de custos caso o cenário de combustível caro se prolongue. “A elevação do custo operacional pode levar à revisão das planilhas desses projetos. Esse excedente acaba sendo diluído no preço final das unidades, tanto no mercado público quanto no privado”, destaca.

Diante desse cenário, Paschoal aponta que o setor da construção precisará buscar alternativas para reduzir custos em áreas menos dependentes do combustível. “As empresas terão que revisar despesas que não estão diretamente ligadas ao transporte, como processos produtivos, uso de materiais e custos operacionais. O desafio será encontrar eficiência para compensar o impacto do diesel na logística”, conclui.