Os jardins de chuva previstos pela Prefeitura de Goiânia como parte da agenda de adaptação às mudanças climáticas são uma medida importante, mas não devem ser tratados como solução única para os desafios urbanos. A avaliação é do engenheiro civil Idalino Hortêncio, que defende a adoção de outras estratégias para ampliar a drenagem, reduzir a temperatura das vias e aumentar a infiltração da água no solo.
"A medida é adequada, mas não resolve o problema de forma isolada, e requer um estudo de espécies adequadas para a implementação, que sejam adaptadas ao clima do Cerrado", afirma.
Segundo o engenheiro, a implantação dos jardins de chuva deve ser acompanhada por pavimentos permeáveis, revestimentos que absorvem menos calor e projetos de arborização planejados para gerar sombra sem comprometer a infraestrutura urbana.
"Nós temos tecnologias de asfaltamento com característica de favorecer a infiltração da água. Além disso, temos técnicas de calçamento e pavimento refletivos, que absorvem menos radiação e geram menos calor", explica.
Rua climática
Hortêncio cita o conceito de "rua climática", adotado em cidades como Copenhague, na Dinamarca, onde os jardins de chuva fazem parte de um conjunto de intervenções urbanas. "Em Copenhague, os jardins de chuva são apenas uma parte da estratégia mais global, que é criar os microclimas urbanos para combater as ondas de calor", destaca.
Outro ponto levantado pelo engenheiro é a necessidade de adaptar os projetos às características do Cerrado. Segundo ele, a escolha da vegetação deve considerar tanto o período chuvoso quanto a longa estiagem registrada na região. "As mudanças climáticas significam um agravamento dessas condições. Tudo indica que nós vamos ter chuvas mais intensas em um verão chuvoso já longo e secas ainda mais prolongadas em uma estiagem que já é extensa", afirma.
Entre as espécies indicadas, Hortêncio cita o murici, por favorecer a infiltração da água no solo, e gramíneas como o capim rabo de raposa e o capim flecha, que auxiliam na retenção de água durante os períodos de seca.
Para o engenheiro, a eficiência das soluções deve prevalecer sobre critérios exclusivamente paisagísticos. "Nossas plantas locais, do Cerrado, podem não ser a melhor opção para agradar aos olhos para muitos, mas certamente são nossas maiores aliadas nessa luta para construirmos uma cidade preparada para os desafios que temos pela frente", conclui.